Você, seu zé ninguém
23.12.2006 | A revista “Time” – uma espécie de “Veja” americana – elegeu “você” a Personalidade do Ano. Isso quer dizer o seguinte: o cara de 2006 foi qualquer um, todo mundo, ou seja, ninguém. Esse papo de enaltecer nossa participação na revolução da nova web, de valorizar o explosivo crescimento do conteúdo participativo via blogs, YouTube, Wikipedia e o reino da mídia global, essa conversa fiada sobre a conversa fiada eletrônica, francamente, estão querendo te fazer de bobo, amigo internauta. Democracia digital é o escambau. A verdade é a seguinte: escolheram você para personalidade de um ano de merda.
“Você”, é bom lembrar, concorreu com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, o da China, Hu Jintao, o da Venezuela, Hugo Chávez, e o líder da Coréia do Norte, Kim Jong-il, enfim, uma turma que falou mais do que produziu notícias. Não são "gente que faz" como Adolf Hitler, em 1938, e o aiatolá Khomeini, em 1979, para citar dois dos cretinos de marca maior que já participaram da competição. George W. Bush é bicampeão nesse troço.
Mas nem sempre, no final, o mal vence. Albert Einstein levou o título de Personalidade do Século 20. Ano passado, deu empate entre Bono Vox e Bill Gattes, mas também não se trata, necessariamente, de uma competição entre os maiores chatos do mundo. Se fosse esporte nacional aqui no Brasil era capaz de em 2006 ganhar o Lula, o Gabeira, o Rogério Ceni ou o Maluf. O troço não tem mesmo nenhuma lógica, a não ser escolher alguém em evidência no noticiário para vender revista, muita revista. Responda rápido: o que rende maior tiragem, uma capa com Hu Jintao ou essa que chegou às bancas com espelho e tudo na ilustração para refletir “você” no lugar da Personalidade do Ano?
Não vejo nada de errado na estratégia da “Time”, eu mesmo já inventei coisas piores para garantir meu emprego. O que me preocupa – e muito – é o discurso sobre o qual tal estratégia de marketing está montada. Essa história de dizer que o leitor venceu o jornalismo e assumiu o comando dos meios de comunicação modernos – “Você, e não nós, está transformando a era da informação”, afirma o editor da “Time” –, essa idéia de dar voz a quem não tem o que dizer, de entregar as ferramentas de produção a quem não sabe fazer, dá nisso: ninguém fez nada que mereça destaque em 2006. Destaca-se, então, a possibilidade de fazer. Vamos lá, qualquer estúpido é capaz.
Acho ótimo que todo mundo possa dizer o que pensa em rede planetária, danem-se as normas gramaticais e os bons costumes, mas daí a exaltar a banalização do raciocínio como sintoma benigno da inclusão digital, oxente, acho que o leitor tem razão: estou ficando velho mesmo. Mas não do gênero que vai ficar brigando com o estado de coisas a que chegamos. Parabéns pra “você”, personalidade do ano! Uhuuuuu!