Chavez, o jegue expiatório
Está muito esquisita essa história de demonizar Hugo Chavez por suas peripécias esquerdo-latino-primitivas, como se o povo venezuelano fosse um adereço da história e não protagonizasse os seguidos referendos, consultas e eleições que vêm elegendo o presidente repetidamente. Ainda que se entendam que, como no caso dos super-salários dos suplentes de deputados, as presepadas de Chavez sejam filé mignon para a imprensa, é esquisito ver, novamente, o tom de revolta irônica dos editoriais e colunas.
As eleições venezuelanas são monitoradas por observadores internacionais, salvo engano, liderados pelo ex-presidente americano Jimmy Carter. É verdade que Chavez andou anunciando que pretende, sim, apresentar projeto de reeleição permanente ao Congresso. É certo que já disse que vai roubar empresas alheias – o que esquerdistas gostam de chamar de “nacionalização”. Mas, por enquanto, vamos parodiar. Sei lá, imaginar cartilhas superfaturadas do trio Huguinho, Evinho e Luisinho, a pregar a revolução dos pobres, dos analfabetos e dos sem-terra.
Chavez é resultado, não origem. É efeito, não causa. Veio ao mundo para mostrar que, quando uma nação se deixa enganar por déspotas e populistas de esquerda (com o perdão do pleonasmo), só lhe resta conviver com o atraso institucional, a falta de crédito no mundo e miseráveis, famintos e felizes.
É injusto que Hugo Chavez seja responsabilizado pelo buraco em que se enfia seu país, mesmo que sob sua boina e sua espada cafona. Como é injusto julgar as ações de um deputado federal eleito, mesmo que seja um ex-traficante que espanca mulher no meio da rua. Seria ele mais culpado do que seus eleitores?
Analisemos por eliminação, como na matemática do primário: se há poderes constituídos, se existe uma Constituição, se são realizadas eleições, se a apuração é transparente e se não há ditadura, o problema só pode ser um: o povo.
Sem medo de errar.
Democracia é assim. Vence quem consegue o voto da estúpida maioria.
Pra meio entendedor duas palavras bastam.