O Anti-herói publicitário

Não que o mundo Matrix seja exclusividade do Amazonas, mas convém analisar, ou tentar analisar, os últimos perrengues ocorridos na cena politiqueira manauense. Sim, este mundo Matrix, onde o que vemos parece coisa de programadores de computador, às vezes ameaça ruir, como se tomássemos, mais num descuido das máquinas do que por vontade própria, a pílula que nos abre os olhos para a verdade.

No filme dos irmãos Wachowski as máquinas dominavam o mundo e iludiam os humanos remanescentes com um cenário lúdico e pacífico, de ordem e cotidiano, enquanto nos subterrâneos do planeta, por trás da bela interface, um mundo em cinzas era dominado por andróides que usavam humanos como combustível para sua subsistência.

Durango Duarte, publicitário e empresário, tomou de Laurence Fishburne o papel de Morpheus e ameaçou, menos dado a rompantes revolucionários do que o personagem do filme, contar tudo o que sabe, botando abaixo a cidade de Manaus e destruindo a bela paisagem criada pelos computadores patrocinados pelos poderosos. Mas nosso Morpheus ficou na ameaça velada, assim meio como se tivesse deixado escapar que tinha a chave para o fim do império da mentira. E se calou.

Tudo bem, não vivemos no cinema. Nossos Morpheus e Neos não têm a missão de salvar o mundo. Querem apenas segurar seu osso, manter sua renda, preservar sua propriedade particular. Ao menor sinal de sacanagem das máquinas (e só assim) nossos heróis se armam e ameaçam pôr tudo abaixo.

Tudo bem, não vivemos no cinema.

As máquinas, comandadas pelo prefeito neste episódio da trilogia, ameaçaram destruir a ordem vigente, derrubar o paraíso baré, de moralidade e de civilidade. Poderiam tê-lo feito, não fossem os brios de nosso Morpheus publicitário.
 
Por ora, nos resta imaginar um mundo cinzento, uma terra arrasada, cheia de dor e de destruição. Por ora, nos resta agradecer pela manutenção do paraíso.

A máquina cedeu às ameaças heróicas de Morpheus.

Tomar a pílula da mentira é mais confortável.

Que bom que não vivemos no cinema.

 
O Estado do Amazonas, 24 de janeiro de 2007 

2 Responses to “O Anti-herói publicitário”

  1. Fran Pacheco Says:

    “Oh, quão terrível é o conhecimento quando não traz nenhum proveito para o sábio…” (Sófocles – Édipo Rei). Toda vez que um insider ameaça falar, a mensagem cifrada é a seguinte: "Aceito desesperadamente um cala-boca. Valor a negociar."

  2. Osimar Medeiros Says:

    A solução é eleger o Jeremias cabra omi pra presidência. Bandido por bandido, prefiro os sinceros.

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