Arquivos da Categoria'Letras'

Partindo desta para a melhor

Quarta-feira, Janeiro 24th, 2007

Durante os próximos dias, este blog será atualizado normalmente, mas já em ritmo de despedida. O Malfazejo já está de casa e cara novas, em outro endereço, o

http://omalfazejo2.wordpress.com/

Lá os leitores terão mais facilidade de acesso, de deixar comentários e de navegação. Já está no ar, recebendo os mesmos posts deste endereço. Até que tooooodos os usuários se acostumem com a brusca mudança, será assim. Depois disso – e não sei quanto tempo isso vai levar – só estará disponível o novo endereço.

Os motivos? Cansei de ter que deletar, diariamente, mensagens de spam nos comentários, especialmente de um tal de Viagra, veja só. Depois porque o acesso por vezes era difícil, lento. E depois porque os endereços "my1blog" estão meio abandonados, sem novidades, sem suporte. O provedor atual, o Wordpress, oferece mais recursos e mais opções, ao mantenedor do blog e aos visitantes. Vá lá,confira.

De resto, resta pedir desculpas pelo transtorno. E pedir que, assim que puderem e quiserem, atualizem o endereço do Malfazejo (agora Malfazejo 2.0) nas suas listas.

Muito obrigado.

 Ismael

O Anti-herói publicitário

Terça-feira, Janeiro 23rd, 2007
Não que o mundo Matrix seja exclusividade do Amazonas, mas convém analisar, ou tentar analisar, os últimos perrengues ocorridos na cena politiqueira manauense. Sim, este mundo Matrix, onde o que vemos parece coisa de programadores de computador, às vezes ameaça ruir, como se tomássemos, mais num descuido das máquinas do que por vontade própria, a pílula que nos abre os olhos para a verdade.

No filme dos irmãos Wachowski as máquinas dominavam o mundo e iludiam os humanos remanescentes com um cenário lúdico e pacífico, de ordem e cotidiano, enquanto nos subterrâneos do planeta, por trás da bela interface, um mundo em cinzas era dominado por andróides que usavam humanos como combustível para sua subsistência.

Durango Duarte, publicitário e empresário, tomou de Laurence Fishburne o papel de Morpheus e ameaçou, menos dado a rompantes revolucionários do que o personagem do filme, contar tudo o que sabe, botando abaixo a cidade de Manaus e destruindo a bela paisagem criada pelos computadores patrocinados pelos poderosos. Mas nosso Morpheus ficou na ameaça velada, assim meio como se tivesse deixado escapar que tinha a chave para o fim do império da mentira. E se calou.

Tudo bem, não vivemos no cinema. Nossos Morpheus e Neos não têm a missão de salvar o mundo. Querem apenas segurar seu osso, manter sua renda, preservar sua propriedade particular. Ao menor sinal de sacanagem das máquinas (e só assim) nossos heróis se armam e ameaçam pôr tudo abaixo.

Tudo bem, não vivemos no cinema.

As máquinas, comandadas pelo prefeito neste episódio da trilogia, ameaçaram destruir a ordem vigente, derrubar o paraíso baré, de moralidade e de civilidade. Poderiam tê-lo feito, não fossem os brios de nosso Morpheus publicitário.
 
Por ora, nos resta imaginar um mundo cinzento, uma terra arrasada, cheia de dor e de destruição. Por ora, nos resta agradecer pela manutenção do paraíso.

A máquina cedeu às ameaças heróicas de Morpheus.

Tomar a pílula da mentira é mais confortável.

Que bom que não vivemos no cinema.

 
O Estado do Amazonas, 24 de janeiro de 2007 

Notas de segunda-feira

Segunda-feira, Janeiro 22nd, 2007

A julgar pelas tramas de seqüestro e morte que fazem parte da vida do Ministério Público da novela Páginas da Vida, não se pode negar que o estilo de Manoel Carlos seja realista ao extremo. Resta agora saber se Maneco influenciou Vicente Cruz ou se inspirou nas peripécias dos promotores amazonenses para seu realismo fantástico.

Mas vale como sugestão para um daqueles depoimentos de fim de capítulo: Vicente contando o drama de ser acusado de um crime, do preconceito da sociedade contra mandantes de assassinato e explicando o linguajar técnico de um magistrado, que desiste de encher a laje de uma igreja falando "aborta, aborta!".

Tudo bem que uma cervejaria holandesa tivesse a brilhante idéia de criar uma cerveja para cachorros. Mas precisava fazer uma foto em que um bicho que não se parece com cachorro já está "cachorro", deitado e sendo abastecido por terceiros?

Diálogo entre Pedro Bial e Fani, cidadã comum e anônima que agora tenta a vida no Big Brother: Bial: "Você é de Nova Iguaçu mesmo? Nasceu lá?". Fani: "É, sou de lá mesmo, mas nasci num hospital da Tijuca".

Justificativa de um deputado da base aliada de Zeca do PT, agora ex-governador de Goiás, para a pensão vitalícia de 22 mil que foi aprovada para ex-governadores de estado: "acho justo que se dê esse apoio aos governadores, evitando assim que eles procurem ganhar dinheiro de forma ilícita". E ainda há quem duvide da honestidade e da sinceridade de deputado no Brasil.

Belarmino Lins fraudando a folha de pagamento da Assembléia e tirando do ar o site do poder, o que possibilitaria a checagem dos fantasmas que ele contratou irregularmente não é novidade. Novidade seria que finalmente alguém se dispusesse a chamar de crimes os crimes que essa laia chama de dia-a-dia.

Reclama alguém muito próximo de Belão: "Belarmino salvou o Nelson Azêdo naquele caso da Prodent. Salvou, porque era cassação certa! E agora o cara vem e faz uma coisa dessas?! O que é a ingratidão das pessoas!".

Betsy Bell é bonita, simpática e cheia de amigos. Além disso, "é de bom tom" (em Manaus se chama assim) que pessoas que vivem do "meio jornalístico" (em Manaus se chama assim) não critiquem abertamente "colegas de profissão" (em Manaus se chama assim). Mas besteirol tem limite, pelamordedeus. Não que eu não goste de besteira, mas tudo em excesso é nocivo ao fígado.

A justiça americana obrigou o casal Estevam e Sônia Hernandes, cabeças da organização criminosa "Renascer em Cristo", a usar um chip nos pés que indica sua localização às autoridades. O casal também está proibido de frequentar bares e centros comerciais, como templos religiosos. Sônia está sedada desde que soube que não pode ir a shopping-centers. Estevam continua fazendo cara de bunda.

Durango Duarte disse a Ronaldo Tiradentes que se passasse meia hora falando das coisas que sabe, a cidade viria abaixo. Independente dos motivos que teriam levado o prefeito Serafim Corrêa a voltar atrás no decreto de desapropriação do prédio do publicitário, importante mesmo seria Durango morder em vez de ladrar. Até porque saber de irregularidades e falcatruas na administração pública e não denunciar não isenta ninguém de responsabilidade com a população.

Mário Frota assumiu mais uma vez a Prefeitura de Manaus. Agendou reuniões que não devia, falou do que não sabia e jogou mais uma vez contra o patrimônio. Com um vice desses, quem precisa de Sabino Castelo Branco? Toda vez que Mário assume a Prefeitura entra em polvorosa. É mais ou menos como se um bebê de dois anos entrasse numa loja de objetos de cristal. 

A urna eletrônica é um orgulho nacional. Assim, mais ou menos como se tivéssemos orgulho do vaso sanitário que o povo brasileiro tem em casa. Pois não é mais. Há fortíssimos indícios de fraude em Alagoas. E se há fraude num lugar, o empreendedorismo criminoso brasileiro já espalhou a novidade pelo país. Brasil, um país de todos.

Novo Evangelho – A Bíblia do Caos

Sexta-feira, Janeiro 19th, 2007
A Glória!

O puder tem orgulho de sua impunidade
(só perdemos pra Nigéria).
 

Millôr Fernandes é o avô (desculpa, velhinho) que eu queria ter tido, pra me contar, lá na varanda de casa, coisas assim:

"Toda hora eu vejo, em jornais, revistas, televisão, e na rua, pessoas cada vez mais "livres" de preconceitos e… E, no entanto, todas estão convencidas de que a Terra gira em torno do Sol. Por quê? Pergunte a elas e elas responderão: "Ué, Galileu provou isso, há muito tempo" Provou pra quem, meu bem?, repergunto eu."Pode ser que tenha provado pros cientistas. O homem comum, e mesmo nós, pejorativamente chamados intelectuais, aceitamos, e pronto. Sem pensar. Preconceituosamente. Como antes de Galileu acreditávamos que o sol girava em torno da terra. Mas entre Galileu, de cujas "provas" nunca tomamos conhecimento nem sabemos dizer quais, e a realidade, que, literalmente, salta (gira) a nossos olhos, temos que acreditar é em nossos olhos. Nossos olhos vêem, com absoluta certeza, que o sol nasce ali (a leste) e morre do outro lado (a oeste), girando em torno de uma terra absolutamente parada (terremotos à parte), sobre a qual caminhamos sem sentir o menor movimento. Pra mim o sol gira em torno da terra. E estamos conversados."

Hoje, já habituado pelos anos de convívio com questiúnculas universalmente importantes, me contento com tiradas assim:

Prudência: E devemos sempre deixar bem claro que nenhum de nós, brasileiros, é contra o roubo. Somos apenas contra ser roubados.

Mas confesso, agora pai, eu me assustaria com a prolixia e a sutileza de uma frase como:

- Filhos criados, tudo drogado.

Façamos melhor! clique aqui e divirta-se.

Teu casamento é uma farsa, mana!

Sexta-feira, Janeiro 19th, 2007

Ronaldo Ésper, estilista paulistano chiquérrimo que desenha vestidos de noiva chiquérrimos para socialites chiquérrimas, foi preso em flagrante roubando vasos de plantas de um cemitério. Na delegacia, Ronaldo, ainda vestido com a combinação chiquérrima de jeans, tênis e paletó que usava enquanto praticava o crime. confessou o crime. Mas justificou, dizendo que sofre de depressão (a mesma doença do Lalau) e que toma um remédio importado chiquérrimo que lhe causa transtornos. Uma funcionária do cemitério disse que Ronaldo também afirmara que pegava os vasos por amor à arte.

A loja mais cara e mais chiquérrima do país está à venda, pois no Brasil não há mercado de luxo que resista a uma fiscalizaçãozinha da polícia. Dentro da lei, como se sabe, é inviável investir neste país. A atenção da Polícia Federal parece fazer mal a essa gente, como se o olhar da lei queimasse a pele, esterilizasse o solo, apodrecesse a carne, murchasse as plantas.

Do jeito que anda o mercado de luxo paulistano, não será surpresa se a polícia descobrir, qualquer dia desses, que a vitela das vacas dinamarquesas servida no Fasano é, na verdade, lombo de bode amaciado com martelo de pau. Não se espante se descobrirmos brevemente que Agnaldo Rayol, que emociona noivas e mães de noivas de São Paulo há 138 anos com sua Ave Maria, na verdade canta em play-back, como fazia a premiada dupla Milly-Vanilly. Pois se o costureiro do vestido da noiva é ladrão de vaso de planta de cemitério e o terno Armani do noivo, comprado na Daslu, era contrabando, por que duvidar da procedência das cordas vocais do cantor da cerimônia?

Ao final e ao cabo do dia, é impressão que fica é a de que tudo o que reluz no Brasil é latão; que, por trás daquele terno bem cortado e daquele vinho de 3.000 reais que se vê nos restaurantes do Morumbi há apenas um Delúbio ou um Severino, com seus dentes tortos e seus habeas corpus preventivos, a gastar o que foi roubado do povo.

Quase sem exceções, em terra de mendigo quem tem luxo é bandido.

Vai um link aí?

Quinta-feira, Janeiro 18th, 2007

Uma dessas memórias amigas dos anos 80 que sempre faz surgir um sorriso neste meu rosto pálido de fantasma é a de um muro na Av. Tarumã esquina com a Major Gabriel, neste lugar havia na época uma dessas lojas de veículos que são bem comuns na praça 14, hoje há nesta esquina um banco Itaú a novinho em folha. Bem, alma dessa minha memória amiga que me faz rir quando a encontro concentra-se na seguinte frase pichada naquele local: "Pau no cu do Botineli".

Acabei de ler isso no blog Caos Manaus , de um fantasma que vaga por Manaus.

É apenas um trecho. Recomendo o restante.

Recomendo o blog todo, que é novo, mas vai chegar à velhice, ô se vai…

O blog, claro, já está há dias na minha lista de leitura recomendada. 

Maçaneta do carro de Sabino acerta Silas Câmara

Quinta-feira, Janeiro 18th, 2007

É justificável que a imprensa amazonense chame de nebulosa a operação que transferiu Sabino Castelo Branco do PFL de Amazonino Mendes para o PTB de Roberto Jéferson. E, como se já não bastasse o absurdo de assistir um político brasileiro trocar de partido, a população ainda precisou ver Sabino tomar de Silas Câmara a presidência do partido no Amazonas.

É perfeitamente aceitável que todo cidadão amazonense fique de queixo caído com transações e acertos políticos obscuros. Reelegemos um governador que distribui adesivos com “Eu amo Eduardo!” e é ladeado por patifes de toda espécie. Temos uma assembléia presidida por um nepotista já flagrado pela Polícia Federal acertando favores imorais com o vice-governador. Este mesmo deputado disputa o cargo com outro deputado, este gravado cometendo crime eleitoral e confessando desvio de dinheiro público. Elegemos um senador da República que, dizem as provas, cometeu crime eleitoral, depois de levar incompetência e falta de transparência da Prefeitura de Manaus para o Ministério dos Transportes.

Com um quadro político destes, é perfeitamente plausível que Sabino Castelo Branco tome de assalto – no sentido figurado, leia-se – o partido do Homem-Bomba Roberto Jefferson, receptor confesso de dinheiro ilegal para campanhas políticas. Como é também natural que Vera Lúcia Castelo Branco, recém-saída do pesadelo StephenKinguiano de tomar socos e gravatas de um carro e recém-eleita deputada estadual assuma a diretoria do partido de Getúlio Vargas.

Analistas políticos se apressam em tentar matar a charada e entender o movimento estratégico das peças políticas, como se de política tratasse tal tipo de negociata. Roberto Jefferson, que já admitiu viver nos “intestinos do poder” há décadas, diz que precisa de um homem forte no partido local. Vera Lúcia se apressou em responder: se o problema é homem forte, Sabino é o cara.

Roberto Jefferson tem razão. Com ele, Silas, Sabino e Vera Lúcia, esse partido só pode mesmo ser coisa que sai dos intestinos.

O Estado do Amazonas, 19 de janeiro de 2007

Notas e links

Quarta-feira, Janeiro 17th, 2007

Fernanda Vasconcelos, que interpreta a Nanda da novela Páginas da Vida, está a apenas 20 décimos de segundo do tão sonhado índice para participar dos Jogos Panamericanos do Rio 2007. Especialistas e atletas experientes calculam que Nanda chega lá com mais duas ou três carreiras daquelas que tem dado em frente à câmera.

Já Regina Duarte, a principal expectadora dos piques de Nanda, se limita a fazer cara de "eu tenho medo". Nanda é bem mais bela do que Lula, mas não adianta. Helena tem medo.

Fran Pacheco conclui, após cinco dias de cobertura non-stop da cratera de São Paulo: "Num país em que até o metrô anda desabando, o buraco só pode ser mesmo mais embaixo".

Levante as mãos aos céus, cidadão amazonense. Se metrô subterrâneo desaba em São Paulo, imagine o que poderia acontecer em Manaus com o metrô de superfície de Alfredo Nascimento!

Uma moça teve seu cabelo roubado num ônibus no Rio de Janeiro. Três homens lhe levaram documentos, dinheiro e todo o longo e liso cabelo que ela tinha. Não acredita? Então clica. A TV Globo já estuda uma forma de abordar o assunto num dos próximos jantares da casa de Tide, personagem de Tarcísio Meira em Páginas da Vida. É a vida real, pintada em cores manoecarlianas.

Na Inglaterra é o Celebrity Big Brother que faz barulho, pois acusações de racismo contra uma das participantes estariam chegando à polícia. É que alguns expectadores ouviram alguém chamando Shilpa Shetty, uma linda indiana, de cachorra. No Big Brother Brasil, um loiro chama uma loira de "Porrrta" o tempo todo. Sorte dele que nem ela nem seus representantes na sociedade entenderam ainda o adjetivo carinhoso.

Pedro Doria, do excelente weblog dOMínimo, descobre o que eu já sabia há mais de 2 anos: Barack Hussein Obama. A depender dos americanos, possivelmente o próximo presidente. Tem Hussein e Ob(s)ama no nome, é verdade, mas eu já assisti um de seus discursos e tive vontade de ser americano só pra votar nele. Visite o Pedro Doria e confira um trecho do discurso de indicação de Kerry.

Pra quem gosta de animação e boas idéias, vale a pena. Bruno Bozzetto mostra as diferenças e semelhanças entre a União Européia e a Itália. E as semelhanças entre a Itália e o Brasil.

A Terra Magazine revela que uma estatal paulista comandada por um tucano doou 500 mil ao instituto iFHC. O ex-presidente já teria arrecadado, junto a amigos de vinho francês, mais de R$ 3 milhões.

Nem bem o consórcio de empreiteiras responsável pelas obras do viaduto de SP concretaram as paredes do buraco mais falado do momento (Cicarelli é passado) para evitar acidentes, já há publicidade nas dependências da cratera. Meninas da Red Bull distribuíam a bebida a funcionários das equipes de resgate. Com a recente proibição da publicidade externa na cidade, os publicitários andam procurando qualquer buraco pra faturar um. Literalmente.

Rafael Corrêa, que venceu as eleições apoiado por Chavez, tomou posse no Equador falando em revolução rápida e justiça social, finalmente. Ou seja, lá vem merda. Mas o mais emocionante da cerimônia foi ver Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, prestigiando a festa. A América Latina desce, assim, mais alguns degraus, rumo ao rêgo do mundo.

Notas de segunda-feira

Segunda-feira, Janeiro 8th, 2007

Da série “As poucas tiradas engraçadas que são engraçadas”: o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab anda sendo comparado, em excentricidade, a Jânio Quadros, o maluco da vassourinha. Tentando fazer uma gestão à moda do populismo explícito do velho JQ, Kassab parece não ter a pimenta de Jânio. Ou, segundo Xico Sá, sem álcool. Kassab seria, assim, a Kronenbier da política. (cadê os pratos?)

Da série “As poucas charges geniais que não são do Angeli”, vem essa do Neo Correia, via Ricardo Noblat:

Segundo o portal Terra, a Câmara dos Deputados terá bloqueadores de celulares. O objetivo é inutilizar os aparelhos em todos os tipos de sessões secretas, como por exemplo, em reuniões de CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) em que os depoentes estiverem fazendo denúncias.

É um bom começo. Pra melhorar ainda mais, sugiro apenas uma hora diária de banho de sol, restrição a visitas íntimas e Regime Disciplinar Diferenciado pra deputado que ordene, de dentro da Câmara, crimes que atinjam a população do lado de fora.

Uma secretária da ABIN estava recebendo seu salário por uma conta secreta do Governo. A ABIN (Agência Brasileira de Inteligência!) tem a VS (Verba Secreta), pela qual faz pagamentos que não podem ser divulgados (informantes, quebras de sigilo bancário ordenadas por ministros acuados etc), e estaria sendo usada para coisas que devem ser, sim, publicadas. Imaginei uma coisa dessas num episódio de 24 Horas…

Uma frente parlamentar alternativa, com 30 integrantes e informalmente liderada por Fernando Gabeira, promete fiscalizar os 513 deputados e 81 senadores, como no caso do aumentão de 91% nos salários dos parlamentares, que caiu “por pressão popular”. Estamos bem, enfim: 30 excluídos fiscalizando quase 500 pilantras. Se vamos transformar isso num roteiro de filme americano, com final feliz, é escolha nossa.

O ator global Caco Ciocler, o fotógrafo Renato da novela das oito, foi detido voltando de Búzios com uma trouxinha de maconha. Na delegacia, o ator teria tentado, com seus dotes dramáticos, sensibilizar os policiais, dizendo que faz uso medicinal da erva para driblar as dores lancinantes que a trilha sonora de seu romance com Isabel lhe causam. Os policiais, apesar de emocionados com relato do ator, registraram a ocorrência.

Você pretende ganhar os R$ 50 milhões da Mega-Sena. Então leia primeiro isso. René Senna, que em 2005 ganhou 50 milhões, levou cinco tiros no rosto. A polícia acha que René pode ter sido assassinado por amigos.

Rodrigo Santoro anuncia que vai dexar Lost. Há quem insinue que é dor-de-cotovelo de quem sabe que vai ser demitido. O ator desmente assim: "Não é que eu tô cagando pra série, é maravilhosa a oportunidade de fazer isso. Na verdade eu gostaria de participar mais de 'Lost', mas estou mais empenhado em fazer agora projetos no cinema". Se não me engano, foi exatamente com essa frase que Alexandre Frota e Gretchen explicaram seu "sumiço" das novelas e da mídia.

A boneca Kamélia, símbolo do carnaval amazonense desde 1958, recebeu, no último sábado, a Chave da Cidade de Manaus. Para os pessimistas, uma notícia dessas pode significar a entrega de Manaus ao Diabo ou que estamos agora sem saída daqui. Para os otimistas, pode significar que estamos seguros, pois na mão de uma bonecona daquelas ninguém vai se meter a roubar a chave de Manaus. Para os realistas, os cínicos e os blogueiros desocupados significa só uma coisa: absolutamente porra nenhuma.

Apesar dos colossais investimentos, grandes super-produções sempre têm erros que os estúdios deixam passar. O mais recente pode ter sido de continuidade ou de contextualização histórica nas gravações de Amazônia, a minissérie atual da Globo. Devido a um lapso da autora, Glória Péres, já na época de Galvez Manaus dispunha de um jornal sério, independente e forte como o Correio Amazonense. Como se sabe, Manaus só pôde bater no peito e dizer isso com orgulho muito recentemente – e muito efemeramente também, como tudo o que é bom.

Revolta pra inglês ver

Quinta-feira, Janeiro 4th, 2007

Tudo bem, é cômodo para a imprensa viver neste país, de tão farto material para manchetes e notas. Editores de política são certamente os maiores beneficiários desta terra prometida, que mana fraude e escândalo em vez de leite e mel. Jornalista político não precisa ser politizado, basta ter faro – e nem precisa ter tanto. Trabalho mesmo deve dar a escolha o que entra ou não no jornal, tamanho o banquete de acintes que nossos políticos cometem contra o povo.

Agora vêm às cabeças, em letras garrafais, os R$ 40 mil que deputados suplentes embolsarão em janeiro, sem trabalhar, já que político brasileiro tira férias junto com a criançada. No rádio, na tevê e nos jornais, só dá o novo bofete constitucional e regimental do Brasil em sua própria cara.

Peraí, eu disse “constitucional”? Claro que sim. Está lá, na Constituição e no Regimento Interno da Câmara que, no desligamento do parlamentar titular, seu suplente assume o cargo imediatamente, com direito a salário, verba, telefone, carro, gasolina, moradia, correio, passagem aérea, vagas de assessores para a parentada, além do grosso, do pote de ouro no fim do arco-íris: as fontes de maracutaia sem fim, fluindo em deliciosos rios como na Fantástica Fábrica de Chocolate, com a benção do eleitor.

Não adianta mais apontar suplente de ladrão na rua, porque o roubo é legal. Não adianta mais chamar o Pimenta Neves de assassino, pois pro STJ ele pode ficar solto. Quem é você pra discordar do Supremo Tribunal de Justiça?

Não adiantam as charges e as crônicas ironizando o caráter dos políticos. Ironia mesmo fazem eles com a nossa cara. O Professor Luizinho (petista vixe! vixe!) revidou um xingamento num restaurante com um espertíssimo “foi você que pagou meu jantar, otário!”.

A mídia indiguinalda não torra milhões com campanhas pela Paz, pelas Crianças Esperanças, pra divulgar os novos Big Brothers? Por que, além disso, a mídia não mobiliza a sociedade em grandes concentrações?

Sempre funciona com o Padre Marcelo Rossi e com a Regina Casé.

Adeeeus Ano Nooovo…

Quarta-feira, Janeiro 3rd, 2007

Pra começar um ano novo, esqueça os clichês de Ano Novo. Todos. Esqueça o cardápio de Ano Novo, com pernil, lentilhas, romãs e tantas outras frutinhas e sementinhas que custam 10 reais o quilo. Esqueça a cor da cueca e da calcinha. Esqueça o tipo de toalha da mesa e aquele espumante vagabundo que você chama de champanhe. Esqueça a Sandy e o Júnior na festa da virada da Globo. Esqueça o vizinho fogueteiro que aparentemente montou um paiol durante todo o ano, com morteiros, catolés e bombas de efeito moral exclusivas das forças armadas, e, ainda neste 3 de janeiro, comemora o tapa que o Alex da novela deu na Marta com uma saraivada de pólvora bem acima do seu telhado.

Pra começar um ano novo, evite notícias sobre os temporais de verão que alagarão São Paulo de-novo-todo-ano. Esqueça as previsões, os nomes dos santos e o Amigo Oculto dos atores da Globo. Esqueça também as matérias sobre os discursos de (re)posse de ladrões notórios. Esqueça as cenas de Ivo Cassol em Rondônia, de Maluf em São Paulo, de Otomar em Roraima, de Lula em Brasília. Esqueça que neste ano novo tudo mudou pra você, afinal é nisso que você quer acreditar, mas eles continuam lá, os mesmos patifes de fala grossa e altiva, com suas maracutaias inexplicadas do ano passado.

Pra começar um ano novo, comece a pensar em 2008, 2009, 2010, porque as mudanças que você pediu ao seu santo pra 2007 não vão acontecer. Pelo simples fato de que era você o responsável por fazer com que seus sonhos virassem realidade – e você não fez isso, fez? Pense mais na frente, leia mais, sossegue o coração e afie a razão. Ignore os discursos pela ética de José Roberto Arruda, novo governador do Distrito Federal e ex-violador de painel da Câmara. Despreze o discurso da emoção de plástico de Eduardo Braga e os elogios rasgados de Belão. Belão, tão afeito a cargos que criou até um novo – vice-Primeira-Dama – para a esposa de Omar Aziz, seu confidente telefônico secreto.

Aceita uma previsão e um conselho?

Pra começar bem 2007, esqueça 2007.

O Estado do Amazonas, 3 de janeiro de 2006

Notas

Quarta-feira, Dezembro 27th, 2006

Sugestões de presente de Natal na seção “Literatura Nacional” do Submarino: “O doce veneno do escorpião”, “Depois do escorpião”, “O que aprendi com Bruna Surfistinha” e “Especial Bruna Surfistinha”. Aguarde “Quebrando o Código Surfistinha”, “Revelando o Código Surfistinha” e “Desmistificando o Código Surfistinha".

Coloquei uma meia na janela e esperei o bom velhinho vir deixar meu presente. A saber, meu pedido era um dia, um único dia, sem ter de aturar as notícias sobre o caos nos aeroportos lá do Brasil. Não deu. Papai Noel ficou preso numa conexão entre São Paulo e Manaus.

Não ser tão espiritualizado quanto devemos, nesta época, pode ser lucrativo. Encontrei o Espírito do Natal com descontos de até 70% na manhã deste dia 27. Nada nada, acho que economizarei uns 300 reais em provas de carinho, amizade e amor este ano.

Só existe uma coisa mais chata do que participar de “Amigo Oculto”. É assistir o “Amigo Oculto” das celebridades no Fantástico.

Pro Reveillon de Manaus? Gil e Berg Guerra, cantora de axé decadente e cantor revelação do brega. Há, definitivamente, horrores que só a combinação de pouca verba com mau gosto pode proporcionar.

Falando no assunto, não tem coisa mais fácil do que saber quem são seus colegas gays do que checando a lista de sugestões de presente. R.E.M., Adriana Calcanhoto, Ana Carolina, The Smiths, Depeche Mode, Madonna e Placebo entregam qualquer um. Que bom que, salvas as obrigatórias exceções, são quase sempre música boa.

No meu trabalho lideram as sugestões masculinas de presente as loções cremosas da Natura, os protetores solares, os cremes anti-rugas e as colônias do Boticário. Então tá bom.

27 de dezembro, e já há alguns dias a gangue da Assembléia não apronta nenhuma presepada. Vejo nuvens escuras no horizonte e temo pelo erário até o próximo sábado, quando provavelmente alguma sala daquele presépio da Recife ficará de luzinha acesa até tarde.

A Simone é bonita, charmosa e elegante. Mas está na minha lista negra há vários natais, por motivos óbvios, além daquilo que fez com “The Blower’s Daughter”, do Damien Rice.

Fogos lá fora? Não, obrigado. Confraternização em churrascaria? Não, obrigado. Alegria sem motivo? Não, obrigado. Inferno no trânsito? Não, obrigado. CD “A Harpa do Natal”? Não, obrigado.

Você, seu zé ninguém

Quarta-feira, Dezembro 27th, 2006

23.12.2006 |  A revista “Time” – uma espécie de “Veja” americana – elegeu “você” a Personalidade do Ano. Isso quer dizer o seguinte: o cara de 2006 foi qualquer um, todo mundo, ou seja, ninguém. Esse papo de enaltecer nossa participação na revolução da nova web, de valorizar o explosivo crescimento do conteúdo participativo via blogs, YouTube, Wikipedia e o reino da mídia global, essa conversa fiada sobre a conversa fiada eletrônica, francamente, estão querendo te fazer de bobo, amigo internauta. Democracia digital é o escambau. A verdade é a seguinte: escolheram você para personalidade de um ano de merda.

“Você”, é bom lembrar, concorreu com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, o da China, Hu Jintao, o da Venezuela, Hugo Chávez, e o líder da Coréia do Norte, Kim Jong-il, enfim, uma turma que falou mais do que produziu notícias. Não são "gente que faz" como Adolf Hitler, em 1938, e o aiatolá Khomeini, em 1979, para citar dois dos cretinos de marca maior que já participaram da competição. George W. Bush é bicampeão nesse troço.

Mas nem sempre, no final, o mal vence. Albert Einstein levou o título de Personalidade do Século 20. Ano passado, deu empate entre Bono Vox e Bill Gattes, mas também não se trata, necessariamente, de uma competição entre os maiores chatos do mundo. Se fosse esporte nacional aqui no Brasil era capaz de em 2006 ganhar o Lula, o Gabeira, o Rogério Ceni ou o Maluf. O troço não tem mesmo nenhuma lógica, a não ser escolher alguém em evidência no noticiário para vender revista, muita revista. Responda rápido: o que rende maior tiragem, uma capa com Hu Jintao ou essa que chegou às bancas com espelho e tudo na ilustração para refletir “você” no lugar da Personalidade do Ano?

Não vejo nada de errado na estratégia da “Time”, eu mesmo já inventei coisas piores para garantir meu emprego. O que me preocupa – e muito – é o discurso sobre o qual tal estratégia de marketing está montada. Essa história de dizer que o leitor venceu o jornalismo e assumiu o comando dos meios de comunicação modernos – “Você, e não nós, está transformando a era da informação”, afirma o editor da “Time” –, essa idéia de dar voz a quem não tem o que dizer, de entregar as ferramentas de produção a quem não sabe fazer, dá nisso: ninguém fez nada que mereça destaque em 2006. Destaca-se, então, a possibilidade de fazer. Vamos lá, qualquer estúpido é capaz.

Acho ótimo que todo mundo possa dizer o que pensa em rede planetária, danem-se as normas gramaticais e os bons costumes, mas daí a exaltar a banalização do raciocínio como sintoma benigno da inclusão digital, oxente, acho que o leitor tem razão: estou ficando velho mesmo. Mas não do gênero que vai ficar brigando com o estado de coisas a que chegamos. Parabéns pra “você”, personalidade do ano! Uhuuuuu!

Tutty Vasques,

Médicos desafinados

Quinta-feira, Dezembro 21st, 2006

Agora entendi. Engenheiros e analistas de sistemas também gostam de feiras e seminários, de preferência em Las Vegas e Frankfurt, mas médicos que passam o ano inteiro viajando pra mim pareciam mais decoradores de interiores, daqueles que rodam o mundo atrás daquele artigo antiqüíssimo para pendurar na parede da sala. Já me consultei com médicos que tinham paredes cheias de diplomas expostos, como máscaras indígenas na Malásia, cabeças de alce no Maine. Um destes me mandou pra São Paulo, pra iniciar o tratamento de uma doença grave no coração, e meu problema era no estômago. Fiz um cateterismo. Até assinei termo de responsabilidade, assumindo os riscos de um procedimento que eventualmente mata o paciente.

Mas agora entendi. Os congressos são a forma que a comunidade médica encontrou para combinar de dizer ao paciente a mesma coisa – geralmente um “é uma virose, Dona Ruth. Muito líquido e cama pra esse garotão, hein!”.

Ainda há médicos relapsos, destes que dão impressão de estar exercendo a profissão clandestinamente. Aqui vale admitir que nós, pacientes, seguimos a cultura dos médicos cheios de diplomas. Ou você aí, leitor, vai dizer que não espalhou por aí que aquele pneumologista “é o melhor da cidade”, só porque você conseguiu marcar uma consulta com o cara pra dois meses depois.

Em Manaus o fenômeno é avassalador. Como somos pouco privilegiados latitude e longitudinalmente – moramos mal, em português claro –, nossos médicos têm menor acesso às bocas livres cheias de maionese e fritura dos congressos de endocrinologia e cardiologia de São Paulo. Nossos médicos viajam pouco, e por isso estão por fora do que combinam seus colegas mais bem localizados. Resultado? O manauara é capaz de ter três diagnósticos diferentes no mesmo dia para a febre do filho, e todos errados.

Não, o médico amazonense não é ruim. Só mora mal. Se vivesse no sudeste, poderia comer mais salgadinhos, enquanto combinava com os colegas do sul uma única desculpa esfarrapada.

Nós, pacientes, agradeceríamos.

Revolta descartável

Quarta-feira, Dezembro 20th, 2006

Combinemos, as pencas de editoriais e colunas de jornal revoltados contra o aumentão que os deputados e senadores deram a si próprios terão o mesmo destino: irão pro lixo, serão usados para limpar vidraças, embrulharão peixe, forrarão pisos na pintura de fim de ano.

Mais do que o asco que deputados vêm causando na opinião pública, o que deveria revoltar o país é o ritmo cíclico com que a patifaria se consolida e a revolta se mostra inócua. Não adianta mais reclamar, seja em jornais, seja em revistas, reportagens, textos em blogs, campanhas virais de emails; seja esfaqueando um deputado tampinha ou se acorrentando na rua.

Costumamos culpar o Diabo pelos pecados do mundo, o que comprova a “cultura do barulho retórico”, arraigada há décadas na personalidade deste país. Nos revoltamos contra ratos que invadem nossas casas e se banqueteiam com os restos de comida que deixamos pelos cantos. Mas esquecemos da autoria da sujeira, e como fazemos sujeira nas urnas, fale a verdade…

Se deputados mensaleiros, sanguessugas e o restante – corruptos apenas comuns e parlamentares que para nada servem legislam em causa própria, é porque ganharam, democraticamente, o direito de seguir roubando o país ou deixando que seus colegas o roubem.

Políticos brasileiros são o motorista espírito-de-porco, aquele que anda pelo acostamento, não usa seta, cinto, anda na contramão e estaciona em local proibido, e pouco está se lixando com a cara feia alheia. Ao contrário, vê vantagens em estar nos jornais, mesmo que seja por pilantragem, pois sabe que este povo vota em quem aparece. Orgulha-se de ser eleito pela ignorância popular. Ratos gostam de escuridão, sujeira, esgoto.

Barulho justo, mas jornalistas fazem apenas barulho, não chegam a interferir em sua relação paternal com seus eleitores. Ratos usam jornal apenas pra matar o tempo, durante as sessões plenárias. No mais das vezes embrulham o peixe, limpam a janela, forram o piso.

Noutras compram o jornalista.

Por “enfiada”, dado o preço baixo do cento.

O Estado do Amazonas, 20 de dezembro de 2006

Presépio ou presepada?

Quarta-feira, Dezembro 20th, 2006

As noites mal dormidas da última semana me causaram alucinações. Numa delas, na última sexta-feira, saí de carro, e não era mais pro happy hour com os amigos. Precisava comprar fraldas. No caminho de volta pra casa, ali nas imediações do Fazendário Clube, na nossa tão elegante e graciosa Rua Recife, me lembrei de Chevy Chase, naquele filme Férias Frustradas de Natal, em que o pai bobalhão faz todas as presepadas para dar à família um Natal dos sonhos.

Numa das cenas mais engraçadas, Clark Griswold (Chase) decora a casa da família com milhares de lâmpadas – que obviamente não funcionam. Depois de muita confusão, bem ao estilo Os Trapalhões, consegue ligar sua obra. Mas são tantas, mas tantas luzes, que o acender de sua casa causa um colapso de energia no resto da cidade, o que torna sua casa talvez o único ponto luminoso da cidade, visto do espaço.

Foi o que vi ali, na Recife, no prédio da Assembléia Legislativa do Amazonas. Renas, camelos, árvores, ovelhas, estrelas, passarelas, trilhas, manjedouras, burros – pouquíssimos burros, diga-se – e a família sagrada Maria, José e Jesus. Neste caso é necessário nomear a família sagrada, pois há quem veja – eu – estranhas coincidências entre a genealogia de Deus e o nome do prédio, José Jesus Lins de Albuquerque.

Distraído pelo hábito de morar numa rua sem grande movimento, minhas retinas quase me pregaram uma peça, e escapei de perder o controle do carro, diante de tão grandioso, majestoso e detalhado presépio. O prédio de Belão reluzia, com certeza, visto do espaço, o que talvez justifique a troca dos dois postes de iluminação da minha rua por exemplares sem braços de luz. Afinal, para que uma obra-prima daquelas possa encantar Manaus, alguém precisa voltar à época do menino Jesus.

Há diferenças, claro, entre a saga de Clark no cinema e a saga dos deputados. O fato de que é a família Griswold quem paga a conta das presepadas de Clark é uma.

Aqui quem paga os presépios dos deputados são as ovelhas.

Presépios. Não presepadas.

O Estado do Amazonas, 19 de dezembro de 2006

Notas, apenas notas

Segunda-feira, Dezembro 18th, 2006

Uma enfermeira nos informou, na maternidade, que recém-nascidos dormem muito, até 18 horas por dia. Mas, além de muitas outras demonstrações de arbitrariedade, crueldade e sarcasmo, a fofa não disse quais seriam essas seis horas restantes. Adivinhe você quais são essas horas.

Belão e companhia limitada andam me garfando novamente. Foi só inaugurarem o presépio gigante da Assembléia e minha rua fica sem luz diariamente. Caminhamos a passos largos rumo ao século 12.

Me perguntaram por que implico com Belarmino Lins, presidente da ALE. Respondi que não implico com ele, é ele quem implica comigo, todo santo dia, me esfregando suas renas, seus presépios, seu nepotismo, suas maracutaias, sua falta de vergonha e suas patifarias na cara.

Ronaldinho Gaúcho chorou após a derrota do Barcelona para o medíocre Internacional no Mundial de Clubes. Um choro tímido mas, pra mim, melhor do que aquele sorriso medonho após a derrota brasileira na Copa da Alemanha. Está provado, jogadores da seleção têm coração, sim senhor.

O STF vetou por unanimidade o aumento de 91% que deputados e senadores se concederam, por entender que a medida deveria ser votada no plenário das suas casas. É mais ou menos como se os juízes dissessem: “Vocês não podem ganhar aumento sem votá-lo. Vamos lá, levantem a mão se vocês realmente querem ganhar 24,5 mil!”

Há quatro medidas provisórias travando a pauta de votação da Câmara. Precisam ser votadas para que a casa possa votar seu aumento. Sente no sofá e assista a este espetáculo da natureza: deputados trabalhando. Fosse tomado de súbita honestidade moral, o povo brasileiro olharia para esta que é conhecida como “a pior legislatura da história do Brasil” e diria, resignado: “Fui eu que fiz”.

Quem paga não fiscaliza. Quem é pago pra fiscalizar não fiscaliza. Aliás, rouba também. Quem é pego não fica preso. Quem depõe pode mentir. Quem julga também é réu. Quem decide salário de deputado são os deputados. Quem fiscaliza os deputados, o Ministério Público e o TCU, está ocupado em aumentar seu próprio salário. Viva! Vivemos num país de instituições democráticas sólidas e maduras!

Há apenas três coisas que aceito, atualmente, como presente para meu recém-nascido Marcos Vinícius. Não, não falo de ouro, incenso e mirra. Falo de três garrafas de Cosecha Tarapaca, um vinho baratinho do Chile. R$ 20 no Roma. R$ 18 no DB.

Obrigado, muito obrigado a todos os que mandaram mensagens carinhosas sobre o que me ocorreu no último dia 11. Vocês sabem quem são, e saibam que sei quem são todos vocês. Nunca vou esquecer as palavras de cada um, acreditem.

A gente somos incrível!

Quinta-feira, Dezembro 7th, 2006

Aos olhares mais atentos e entregues ao cinismo dos desiludidos, até nas ironias do dia-a-dia o Brasil é pródigo. Enquanto no nosso futebol Roberto Carlos arruma a meia e esquece o francês na cara do gol, no vôlei, este esporte de mauricinhos, somos imbatíveis. Por incrível que pareça, inventamos o avião. Sabe-se lá por que, nosso sistema eleitoral é avançadíssimo. O aeroporto da cidade que não dorme só abre às seis.

Aqui boi voa, vaca tosse, camelo passa pelo buraco de agulha. Neste país vivemos o distúrbio do transtorno bipolar coletivo, temos dupla personalidade, como o Médico e o Monstro. Aqui odiamos e papagueamos os americanos ao mesmo tempo. Pichamos muros com “Fuck USA”, assim, em inglês. Implicamos com Os Simpsons e com filme ruim. Somos rasos como um Pires. A loja mais luxuosa é posta à venda por não pagar aluguel e sonegar imposto. Rico gosta de chamar filho de João, enquanto pobre chama filho de Johnny Clay. Aqui assalariado endividado gosta de vinho caro e deputado rico curte briga de galo.

Em 12 de novembro de 1906, 100 anos atrás, Santos Dumont voava, por cerca de 220 metros, num objeto mais pesado que o ar – o 14 Bis. Hoje não conseguimos levantar vôo. Nos aeroportos de São Paulo e Brasília, por onde desfilam executivos e políticos, laptops perdem a importância, e já deve haver empresas Vedoínicas fazendo lobby no Congresso para que kits de sobrevivência sejam de uso obrigatório nos saguões de embarque e desembarque, da mesma forma que foi feito com os kits de primeiros-socorros do Código de Trânsito.

Dessa forma, ninguém mais poderia fazer check-in sem barraca camuflada, colchonete inflável, cantil, facão e lanterna, além de ração, muita ração, que poderia ser em forma de carne em conserva ou barras de cereal. Ou isso ou vamos escrever manifestos virulentos, acusando os americanos, que descobriram nosso buraco negro – estou falando sério –, de querer internacionalizar nossos céus.

Sim, porque em terra onde boi voa e vaca tosse, acredite, tudo é possível.

O Estado do Amazonas, 8 de dezembro de 2006

Uma seleção que não samba

Quinta-feira, Dezembro 7th, 2006

Não me lembro de brasileiros pedindo que um técnico de futebol consagrado fosse presidente do país, do jeito que vem ocorrendo com Bernardinho. Quando lembro de Zagallo, Telê Santana e Carlos Alberto Parreira, não me lembro de notinhas em jornais, gritos nas ruas nem sugestões engraçadinhas para que entrassem para a política. Com Bernardinho é diferente.

Talvez seja porque, ao contrário do futebol e de seus 180 milhões de técnicos, o vôlei é esporte de elite. No vôlei apenas os grandes têm chance de vencer. No vôlei não há craques natos, que já saem da barriga da mãe dando dribles como ocorre no futebol. Vitórias e títulos no vôlei dependem de treino, trabalho, sacrifício, concentração (distância da família) e motivação, requisitos sem os quais é muito difícil, mas não impossível, vencer no futebol. No vôlei Romário não se criaria. É esporte, não lazer.

Dito isto, ver um brasileiro conseguir levar a seleção nacional ao auge do vôlei é, guardadas as devidas proporções, como um brasileiro liderando equipes na construção da estação espacial internacional. Bernardinho faz algo que nenhum de nós consegue: se manter no topo entre os melhores.

Bernardinho é o japonês da padaria, que trabalha 18 horas por dia e não desiste de dar “bom dia” e “obrigado” aos clientes. É o americano bilionário que acorda às 5h pensando em comprar mais empresas. É o político sueco que preenche seu dia com trabalho, é o físico alemão que se enfurna no laboratório. Bernardinho se parece com tudo o que representa o sucesso à moda antiga, aquele conseguido com suor, hematomas, esforço e dedicação, não o sucesso arrogante e frívolo do futebol, feito de novos ricos boçais que debocham de quem não sabe “pedalar”. Bernardinho, e isso me dói constatar, não lembra brasileiro.

Não deixa de ser irônico – e, pra este autor, prazeroso – ver o estilo Ronaldinho sair derrotado, enquanto o estilo Bernardinho vence. É um sinal de esperança para um país acostumado à miséria do menor esforço e do talento por si só.

Notas de ……..-feira

Terça-feira, Dezembro 5th, 2006

Gisele, a bulímica e fogosa filha de Déborah Evelyn em Páginas da Vida, carrega seis camisinhas na bolsa depois que provou da fruta com Luciano, o namoradinho. Dizem as línguas bipartidas da novela que o “amor de bica” da adolescente não seria tão grande se o garoto não fosse cunhado do diretor da novela.

Silas Ambulância Câmara, Nelson Prodente Azedo, Belarmino Tsunami Lins e Átila Filha Fantasma Lins tiveram suas contas reprovadas pelo TRE. Têm 72 horas para se defender. Desnecessário. Como serão serenamente perdoados, os técnicos do TRE bem que poderiam se dedicar a trabalhos mais produtivos.

Minha irmã nos deu esse presentão. Obrigado, Maria, mas pô, deixa que o Marcos Vinícius decide esse tipo de coisa na idade certa…

“Vamos lá: não estamos mudando o mundo. Estamos construindo um produto que ajuda as pessoas a comprarem lixo – e a verem pornografia.” – de Bill Watkins, presidente da Seagate, principal fabricante de HDs do mundo. (Mas poderia ter saído da boca de qualquer sujeito ligado à fabricação de computadores) – via Pedro Doria.

Augusto Pinochet, que há dois dias estava de passagem marcada dessa para a pior, se recuperou milagrosamente. Há quem diga que o bom velhinho sempre piora quando sua situação judicial lhe traz perigo. Enquanto isso, José Janene providencia mais um atestado médico – alegando invalidez – para se safar da cassação. A América Latrina é, de verdade, uma beleza.

Estou me viciando no "portal" da Assembléia Legislativa do Amazonas. É que a Diretoria de Comunicação da casa está levando ao Estado da Arte o ofício de materializar a solidez e a coerência dos nossos deputados. Hoje, até o momento, foi esta a peça do dia. Nunca na história desse país alguém se contradisse em tão pouco espaço…

A Daslu está à venda. Empresa de consultoria contratada para tirar os sapatinhos contrabandeados de Eliana Tranchesi da lama sugeriu que a maior loja de luxo do país seja vendida para saldar as dívidas em impostos sonegados e pagar o ano inteiro de aluguéis atrasados. Aqui entre nós: tem coisa mais chique do que rico brasileiro? Claro que não.

O goleiro Renan, do Internacional, exibe o uniforme que o clube irá usar no Mundial de Clubes do Japão. Depois esse pessoal reclama das piadinhas do Casseta & Planeta…

Raimundo Holanda conta que Eduardo Cadeirudo Braga vai convidar Fidélis Baniwa para ocupar a Secretaria de Cultura no lugar de Robério Braga. Fidélis Baniwa, que tem como grandes realizações culturais a amizade pessoal de Lula, uns amassos em Ana Paula Arósio, a campanha presidencial de 2006 e ótimas tiradas em A Diarista como Solineuza, da Rede Globo, não confirma nem desmente. Muito menos Cadeirudo Braga. Muito menos Lula. Muito menos Marinete. Enfim, antes Poias do que Puxas.