É sempre assim. Toda vez que a Globo anuncia um novo Big Brother (ainda há isso lá pra fora?), milhares de otários se mexem pra gravar uma fita e mandar para a emissora. Mas nenhum é selecionado. No fim, as portas daquela casa parecem a porta da boate da moda, um Studio 54, onde critério pra entrar é beleza. Fila é pra feio ou pobre. No fim, mais ou menos como se faz em algumas casas noturnas badaladas de São Paulo, Boninho pega um book e faz uma regra de três invertida entre gostosura e preço. Aí entram modelos que já posaram para a Sexy, ex-dançarinas do Gugu e amigos de filho de diretor da empresa.
Aí vem a pergunta: o que há de errado nisso? Se o milhão é privado, se o critério é da casa, azar dos burraldos que ainda acreditam em sorte, em carisma próprio.
Numa emissora em que garota do tempo vira âncora do Jornal Hoje ou correspondente em Nova Iorque porque casa com o diretor, o que esperar de diferente numa disputa como o Big Brother? Estão aí William Bonner e Fátima Bernardes, Fabiana Scaranzi e William Waack, Sandra Anemberg e Ernesto Paglia, Patrícia Poeta e o diretor da Globo em Nova Iorque (cujo nome não sei), além de um sem número de atrizes que protagonizam novela das oito assim que casam com o diretor, cantoras que têm música incluída na trilha sonora porque namoram com executivo da emissora etc.
É sempre assim. Muita gente assistindo e muita gente reclamando da futilidade da coisa. Não que seja uma experiência sociológica de grande peso ficar assistindo uma turma de marombados e dançarinas de trance tomando um porre, mas no final das contas aquilo é a miniatura do mundo externo mesmo, um microcosmo do que vemos no dia-a-dia. Não, claro, no quesito beleza física, até porque menos de 1% das mulheres brasileiras têm atributos pra simular sexo oral com uma garrafona de leite derramante nas páginas da Sexy. Mas convenhamos, aquela conversa unânime de "afinidade" e "vou votar na pessoa que não virou minha amiga" é didática, a gente é que não percebe uma coisa importante dessas bem à nossa frente porque precisa ajudar o filho a fazer o dever de casa ou bobagem do gênero.
A ausência de barrigudinhos, gays, feiosos e pobretonas na casa é coisa da audiência também. Sempre ecoando a preferência da clientela, a emissora parece ter percebido que justiça social mesmo não é botar um coitado no meio das feras siliconadas, mas enjular as feras siliconadas, somente elas e todas juntas, e assisti-las devorando-se entre si. A audiência brasileira não está preparada pra jogos ou gincanas que envolvam facetas e nuances humanas, estratégia e inteligência – no sentido sociológico da palavra. Não se houver um pobre, um analfabeto, um gay simpático, uma cabeleireira endividada. Brasileiro torceria para a Argentina numa final de Copa contra o Brasil se os argentinos fizessem um clipe dramático sobre sua infância pobre e o exibissem na tevê brasileira antes da partida.
Embeber em álcool belos jovens com hormônios demais e miolos de menos parece coisa de filme futurista da década de 80, onde víamos robôs ciborgues usando cérebros humanos pra fazer geléia pra ET – no distante ano de 2003.
De certo modo chegamos ao futuro. Numa versão abrasileirada do programa de domingo dos romanos, descobrimos que, em vez de assistir leões devorando cristãos e gladiadores trucidando-se entre si, preferimos nos divertir com o vazio absoluto, descartável mesmo, de uma dúzia de dancarinos de trance e ex-modelos da Sexy se devorando entre si.
E vamos combinar, é reality show mesmo. Amigo do filho do diretor, ex-dançarina de palco do Gugu e modelo da Sexy mostram bem como é que funcionam as coisas neste país. Ou vai me dizer que você acha bonito que haja peixada até em sorteio de Big Brother!
Só falta agora você dizer que acredita na Mega-Sena…