
O dado concreto e objetivo é que nunca na história desse país, sabe, houve um presidente tão incomodado com o formato de um debate. Não bastasse precisar debater com quem quer que seja, obrigaram – veja a petulância – o presidente operário a ficar de pé, respondendo a perguntas sobre, veja só, problemas do país. Lula não tinha no que pegar, não tinha uma legião de Newtons Cardosos e Jáders Barbalhos às suas costas pra puxar o aplauso da multidão. Na ausência de foco, um cão enjaulado parte pra cima do outro, e assim Lula, por várias vezes, quase tocou com o dedo o narigão do devoto São Francisco de Assis. Houve momentos em que tocou no braço de Alckmin, num gesto que, se no nordeste e aqui no Amazonas é sinal de calor humano e informalidade simpática, num debate nacional, frente a um candidato paulista, era no mínimo exagerado.
Alckmin ganhou o debate, do começo ao fim. Não digo isso com alegria, já que vou votar no Lula, como contei aí abaixo. Mas estou tranqüilo, sei que no Brasil essas coisas não influem, e vou dormir tranqüilo, sabendo que Lula será reeleito e que meu desejo (de que sua superexposição faça com que o Brasil se canse dele até 2010) será realizado. Mando recado, aliás, para Aécio e Serra: relaxem, Alckmin foi muito bem, vai perder. Alckmin se preparou melhor. Se comportou melhor, aceitando até os ataques mais diretos do presidente. Respondeu olhando pros eleitores, os chamou pelo nome. Lula mirava no opositor. Tecnicamente, a estratégia de Alckmin é mais correta. Dirigiu-se sempre formal e respeitosamente a todos, exortou a seriedade no trato de questões caras ao povo brasileiro e foi, pra usar um termo da moda, mais republicano, agiu mais como um presidente do que Lula. Também por isso vai perder, assim como o garoto mais estudioso e esforçado da turma da escola nunca consegue ser tão popular quanto o moleque travesso e esperto.
O formato do debate na Globo favorece as propostas e os programas, dando a maior parte de seu tempo a perguntas de eleitores, esses sim, preocupados com a escola dos filhos, o plano de saúde dos sogros, os impostos para abrir seu salão de beleza. Assim, os dois candidatos foram impedidos de pautar a discussão, que, do lado de Lula tenderia para a comparação entre seu governo e os 502 anos de governo dos tucanos, e do lado de Alckmin, tenderia para a repetição modorrenta de frases sem efeito como "tá errado", "vou fazer" e "o Brasil pode mais". Ganhou o eleitor, que pôde medir qual dos dois estava mais preparado para responder, não discursar. Nesse quesito Alckmin também venceu.
Mas a cereja do bolo de chuchu veio de bandeja, e da fonte mais improvável: o adversário. Cheio de ginga e deboche, Lula usou a frase errada para perguntar a Alckmin sobre a questão da segurança. "De onde vem o dinheiro para o que você diz que vai fazer na Segurança?" Alckmin, sem um sorriso, um tremor de músculo e sem o afobamento que certamente faria um zagueiro perder um gol debaixo das traves adversárias, foi cirúrgico: "Quando o candidato Lula disse 'de onde vem o dinheiro', eu pensei que ele ia dizer de onde veio o dinheiro do dossiê…" Este foi o primeiro momento, justa e corretamente escolhido pela platéia, de se manifestar, afinal, foi arrasador para o perguntador faceiro. Lula não conseguiu rebater. Nem tinha como.
Depois disso, como William Bonner deixasse perceber que não teria como controlar os convidados dos dois, o debate tornou-se mais barulhento. Desconfio, firmemente, que tenha sido Marta Suplicy a puxadora da torcida do PT. Mas já não havia mais tempo para nada, e mesmo que Lula tenha rebatido Alckmin com a história de que gente do PSDB está envolvida nas denúncias contra o assessor de Mercadante no caso do dossiê, Lula ainda estava atordoado, não conseguiu arquitetar uma boa resposta. Resta claro que o envolvimento de tucanos nas falsas denúncias contra o PT é tão grave quanto a compra do dossiê em si, mas o caso ainda é muito fresco, não havia tempo para ser explorado por Lula já hoje, no debate da Globo. Confesso que, em casa, imaginei os bares da cidade, mais civilizados do que em 2002. Foi gostoso vibrar, àquela época, com o baile que Lula deu em Serra, ver o petismo (até ali comumente confundido com o povo) indo aos céus com a vitória certa do operário. Hoje não. Hoje com certeza não havia mais aquela magia, aquela utopia terceiro-mundista do Salvador da Pátria. Hoje o rei estava nu. Foi o dado triste da noite. Triste, mas concreto e objetivo.
Considerações finais. Alckmin mais coeso, mais estudioso, mais aplicado, mais frio. Lula ainda nervoso, como ao longo de todo o debate, mas falando javanês, a língua do povo, a língua que só quem domina é ele e o povo. Falando javanês, Lula é imbatível. Num palanque, é insuperável. Mas num debate, cheio de homens de terno, seguranças (seus) e jornalistas – ou seja, cheio de elite – Lula não se cria. Andava curtamente prum lado e pro outro, num cacoete de palanque, mas não tinha retorno da platéia, burguezamente vacinada contra discursos populistas mais simplórios. Alckmin fechou melhor, Lula apelou para o chavão petista do “preconceito das elites contra os pobres”. Não colou. Tive a impressão, inclusive, de ter ouvido vaias ao final de suas considerações finais, interrompidas pelo estouro do tempo.
A falta de resposta, de ambos, a todas as perguntas dos eleitores selecionados pelo Ibope, mostrou outro dado concreto e objetivo: não há propostas sólidas de governo, de nenhuma parte. Alckmin repete seu discurso estéril e vago, Lula deixa claro que chegou à presidência para cumprir sua missão terrena, dar comida aos pobres. E assim vai seguindo o Brasil, entre a cruz e a caldeirinha, entre a certeza do populismo de Lula em detrimento do crescimento e o vazio programático e de carisma de Alckmin.
Alckmin venceu o debate, não há dúvida. Nem petistas discordam. Portou-se melhor, articulou melhor suas falas, não deixou passar nenhuma oportunidade de atacar Lula. Mesmo limitado por sua bondade ou falta de pimenta irritantes, nocauteou Lula. Não se intimidou com as quase-peitadas (físicas!) que recebeu, nem se atrapalhou com as ironias – que às vezes funcionam, às vezes não – de Lula. Foi o melhor do começo ao fim, estava mais à vontade, mais concentrado.
É por isso, exatamente por isso, que vai perder a eleição. Por ter tido a petulância de vencer Lula.
Agora é conferir as próximas pesquisas. Lula, depois dessa, deve estar na casa dos 70% de intenção de voto.
O dado concreto e objetivo é que, sabe, nunca na história desse país um presidente venceu uma eleição perdendo um debate tão bonito.
Parabéns, Lula. Você perdeu bonito.